Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o
pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura.
Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta
que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo.
Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas
porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim
depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar,
devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte
dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite.
Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse
intermináveis. Não pedi ao Céu que eles fossem tão longos como os da Aurora,
porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me
apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos
séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um
número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa...
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domingo, 15 de julho de 2012
cor de pitanga
"Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não,
ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias,
que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que
os anjos vinham perguntar-nos pelos nome, a fim de os dar a outros
anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos
unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim, apenas reproduziam a
nossa familiaridade, e muita vez não passavam da simples repetição do
dia. Alguma frase, algum gesto. Também eu os contava. Capitu um dia
notou a diferença, dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus,
eu, depois de certa hesitação, disse-lhe que eram como a pessoa a
pessoa que sonhava..."
fez-se então cor de pitanga
da série: Machado de Assis ME ABRAÇA
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