quero que você caia da janela do terceiro andar que você tome um copo de veneno no almoço que você seja sequestrado que você vá pra Tonga da mironga do kabuletê que você nunca mais volte pra minha cama só que ao contrário
quero que você seja de todo mundo que você diga que me odeia que me deixe esperando por duas horas na mesa reservada pra nós dois que você me ligue falando que não vai mais voltar que você esqueça do meu aniversário só que ao contrário
quero que você tire suas canções do meu violão que você fique sempre vestido na minha presença que você não me provoque que não puxe meu cabelo que não me procure só que ao contrário
nem durmo com sua camiseta quando você nã está aqui nem continuo tomando café com duas xícaras pra fingir que a outra é sua nem fico olhando para a rua pra ver se você está chegando nem deixo um lado da cama separado pra você nem me perfumo quando você está pra chegar nem escrevo e apago cem vezes as mensagens que eu vou te mandar na verdade eu nem te quero nem sinto sua falta na verdade eu te odeio só que ao contrário
A gente é sempre tão barroco com essa coisa de sensação… não só a térmica.
Se está frio, a gente colo 324 casacos, por cima de 3462 blusas e mais 23 calças, por cima do pijama de pinguim…
Frio demais…
Calor demais…
Amor, paixão demais…
É tempestade em copo d’agua
É novela Mexicana
É muito açúcar
É pouco café
As pessoas sofrem horrores com o fim de um relacionamento, por exemplo… acham que nunca mais vão amar, que nunca mais isso, que nunca mais aquilo… Acho que a gente supera quando a gente QUER superar. Sofrer é uma opção. No filme Vivre sa Vie, do Godard, Anna Karina fala:
"Acho que somos sempre responsáveis por nossas ações. Somos livres. Eu levanto a minha mão - eu sou responsável. Viro a cabeça para a direita - eu sou responsável. Estou infeliz - Eu sou responsável. Eu fumo um cigarro - eu sou responsável. Eu fechei meus olhos - eu sou responsável. Eu esqueço que sou responsável, mas eu sou. Eu disse que a fuga é um sonho. Afinal, tudo é belo. Você só tem a se interessar pelas coisas, ver a sua beleza. É verdade. Afinal, as coisas são apenas o que são. Um rosto é um rosto. As placas são placas. Homens são homens. E a vida ... é a vida "
Vivre sa Vie, Anna Karina, SUA DIVA!
Acho digno.
Mas que graça né, eu falando em exagero!!!
Sensação térmica de hoje: me abraça e me beija, me chama de meu amor.
Quando eu era pequena, achava que tinha uma moça que trabalhava dentro da máquina de café. Achava que um campo de futebol era do tamanho do meu quintal, que a pobreza no mundo acabaria de a Casa da Moeda imprimisse um monte de dinheiros e distribuísse loucamente para as pessoas.
Eu achava que as crianças que moravam na praia, não precisavam ir para escola, que eu nunca compraria aquele 'chiclets' que vendiam na farmácia, dentro de um pacote quadradinho (camisinha).
Achava que Tic Tac era uma pílula que me dava poderes mágicos, e antes de dormir eu não pensava em qual roupa eu vestiria no outro dia, mas qual boneca eu salvaria primeiro, se minha casa pegasse fogo.
Eu comprava figurinha para completar o álbum, e salgadinho para pegar o Tazo. Comprava chiclets que vinha com tatuagem, doce que vinha com uma bexiga em cima, Kinder Ovo por um real, e geladinho azul por dez centavos.
Eu caí de bicicleta quando meus pais tiraram as rodinhas, e a primeira vez que eles me deixaram dar uma volta na quadra sozinha, senti como se eu estivesse dando a volta ao mundo e descobrindo a América.
Eu brincava de caça ao tesouro, e enterrava meus brinquedos, (não, eu não achava mais depois).
Eu passava o dia todo montando a casinha da Barbie, mas quando eu terminava de montar, não queria mais brincar, achava idiota aquelas situações que minhas amigas criavam, tipo: "oi amiga, vamos no Shopping???", "nhe nhe nhe", "mi mi mi", me irritava. Mas confesso que minha boneca já namorou o Ken, mas ele a traiu com a empregada (que era uma daqueles Barbies falsificadas com cabelo amarelo, quase carecas).
Sempre entendi de amor e tragédias semelhantes.
Eu me apaixonei pela primeira vez quando tinha 6 anos... ele era meu vizinho, era filho da professora, era mais velho, e andava de skate. Eu tinha vontade de sumir cada vez que ele estava chegando perto. Pensava em 300 coisas legais para falar pra ele, ensaiava na frente do espelho, mas quando a gente de via, eu só falava besteira e esquecia tudo. A gente ia para escola juntos, e eu odiava as garotas da sala dele, queria que elas morressem de febre amarela no Pantanal.
Um dia ele me deu um pingente de coração, e eu quase morri de infarto do miocárdio.
A gente se fala até hoje.
Foi a primeira vez que eu gostei de um menino, que eu senti borboletas no estômago, que eu gaguejava quando ele chegava, que eu ficava vermelha quando ele me olhava, que eu ficava suspirando e sonhando acordada, RIDÍCULA, como toda criatura apaixonada.
Engraçado né... eu tinha 6 anos apenas, era normal ter atitudes idiotas. Mas hoje, com quase VINTE, eu ainda faço e sinto a mesma coisa quando me apaixono!
eu me apaixono todo dia,
uma música,
um lugar,
uma pessoa,
eu me apaixono todo dia.
Tenho uma coleção de paixões, uma coleção de pontinhas de lápis de cor, uma coleção de ex-namorados, uma coleção de garrafas que aparecem na minha bolsa depois da madrugada, uma coleção de músicas, de frases, de sonhos que fazem fila para serem sonhados, e muitas coleções de coleções.
Cada dia eu penso em fazer uma tatuagem diferente, e cada dia eu mudo de ideia e digo "pronto, é essa e fim", mas no outro dia eu mudo de ideia e penso em outra que era mais incrível que a do dia anterior, que por sua vez era mais linda do que a de antes de ontem, que era mais maravilhosa que a de semana passada e resumindo: eu nunca fiz uma tatuagem por isso.
Eu mudo de roupa, de sapato e de opinião todo dia, e tudo que é para sempre me assusta. Nunca consegui ficar mais de 6 meses com um cara, nem com o mesmo corte de cabelo. Cada vez que eu termino um relacionamento, eu corto o cabelo (isso explica porque meu cabelo é curto, e porque eu corto todo mês).
Conheço muitas pessoas interessantes, que me entendem, que gostam dos mesmos filmes que eu, que não vão embora quando eu preciso que elas fiquem, que não comem carne e que sorriem na segunda-feira de manhã. (Mas eu também conheço pessoas que existem.)
Tenho medo quando as coisas dão certo, tenho medo do sentido horário, tenho medo do testado e aprovado pelo INMETRO, tenho medo da polícia, dos advogados e de perder a comanda no bar.